Apesar dos avanços no controle da doença, a hanseníase ainda representa um importante desafio para a saúde pública no Brasil, especialmente em razão da extensão territorial do país e das desigualdades regionais. De acordo com o Boletim Epidemiológico de Hanseníase 2025, o Piauí apresenta parâmetros considerados hiperendêmicos, ocupando a quinta posição entre os estados com maior taxa de detecção de casos novos por 100 mil habitantes.
Segundo a médica dermatologista do Hospital Universitário da Universidade Federal do Piauí (HU-UFPI), Lívia Martins, um dos principais fatores que contribuem para esse cenário é o diagnóstico tardio. “Temos muitos casos em que a hanseníase já se encontra em estágio avançado, com pacientes apresentando sequelas. O ideal é realizar o diagnóstico o quanto antes, de forma precoce, pois assim conseguimos evitar incapacidades físicas e reações mais graves”, afirma.

A dermatologista destaca ainda o papel estratégico da instituição, que é vinculada à Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh), no atendimento às pessoas com hanseníase, atuando de forma integrada nos diferentes níveis de atenção à saúde. O hospital oferece assistência ambulatorial, suporte para internações quando necessário e atendimento especializado de média e alta complexidade, além de integrar ensino, pesquisa, assistência e inovação.
“A internação é fundamental nos casos mais graves, assim como o atendimento ambulatorial, que possibilita o diagnóstico precoce. Além disso, o ensino tem papel essencial, pois forma residentes em dermatologia mais capacitados para reconhecer a doença rapidamente e iniciar o tratamento de forma adequada”, ressalta Martins.
Sintomas e sinais de alerta
A principal característica clínica da hanseníase é a perda de sensibilidade, geralmente associada ao surgimento de manchas na pele, que podem ser mais claras ou avermelhadas. Nessas áreas, há diminuição ou ausência de sensibilidade ao calor, ao frio, à dor e ao toque. Diferentemente da pele saudável, essas regiões não respondem aos estímulos. Em alguns casos, ocorre também o espessamento dos nervos, o que pode intensificar a perda de sensibilidade e gerar incapacidades.

Referência no tratamento de casos complexos
O HU-UFPI é uma das referências estaduais no atendimento a pacientes com reações hansênicas, consideradas manifestações clínicas mais complexas da doença. Esses quadros, muitas vezes, exigem o uso de medicamentos de controle especial, como prednisona e talidomida, além de acompanhamento hospitalar e, em determinadas situações, internação.
“É no HU que esses pacientes encontram atendimento mais especializado. Quem já é acompanhado pela unidade tem acesso direto ao serviço, pois existe uma linha de cuidado específica para hanseníase. Já os pacientes da rede estadual podem ser encaminhados diretamente pelas Unidades Básicas de Saúde, sem necessidade de agendamento prévio, integrando as especialidades de infectologia e dermatologia para confirmação diagnóstica”, explica a médica.
O hospital realiza todo o processo de diagnóstico, manejo das reações e prevenção de incapacidades, com encaminhamentos para terapia ocupacional e fisioterapia, quando indicados. O cuidado é multiprofissional e integrado, envolvendo dermatologistas, infectologistas, equipe de enfermagem, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, farmacêuticos, assistentes sociais e psicólogos.

“O paciente com hanseníase frequentemente enfrenta estigmas sociais, o que torna o apoio psicológico fundamental. Além disso, o serviço social exerce um papel importante na orientação sobre direitos, demandas sociais e inclusão”, completa Lívia Martins.
Transmissão e adesão ao tratamento
A médica infectologista do HU-UFPI/Ebserh, Thallyta Antunes, explica que a transmissão da hanseníase ocorre pelas vias respiratórias, exclusivamente a partir de pacientes não tratados. “O contágio exige contato íntimo, frequente e prolongado, geralmente convivência diária por meses ou anos. Os familiares que residem no mesmo domicílio têm maior risco de adoecimento do que a comunidade em geral. Ainda existe muito estigma, pois muitas pessoas acreditam que um contato rápido já é suficiente para a transmissão, o que não é verdade”, esclarece.
A infectologista também alerta para a importância da adesão regular ao tratamento. “Quando o tratamento é interrompido de forma irregular, pode ocorrer resistência do bacilo de Hansen, dificultando a resposta terapêutica. Nesses casos, pode ser necessário substituir os medicamentos por esquemas mais complexos, com posologia mais difícil e tempo de tratamento prolongado”, destaca.
Perfil dos pacientes atendidos no HU-UFPI:
* Suspeita diagnóstica de hanseníase;
* Casos confirmados que necessitam de avaliação especializada;
* Pacientes com reações hansênicas, neurites ou complicações;
* Encaminhamentos da atenção básica e de outros serviços de saúde.
Havendo indicação médica, o paciente é inserido na linha de cuidado em hanseníase, que inclui:
* Diagnóstico clínico e, quando indicado, histopatológico e baciloscopia;
* Classificação operacional;
* Tratamento medicamentoso;
* Manejo das reações hansênicas;
* Avaliação e seguimento neurológico;
* Orientação ao paciente e aos familiares
Serviço
Em 2025, o HU-UFPI registrou 171 consultas com médicos dermatologistas e 225 atendimentos relacionados ao seguimento do cuidado em hanseníase.
Quando o diagnóstico é realizado durante a consulta ambulatorial, o paciente já recebe a primeira dose da medicação supervisionada e é contrarreferenciado para continuidade do tratamento na Unidade Básica de Saúde. Em ambos os casos, havendo indicação médica, o acompanhamento pode ser mantido no HU-UFPI por meio da linha de cuidado em hanseníase.
Sobre o HU-UFPI
O HU-UFPI faz parte da Rede da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh) desde novembro de 2012. Vinculada ao Ministério da Educação (MEC), a Ebserh foi criada em 2011 e, atualmente, administra 45 hospitais universitários federais, apoiando e impulsionando suas atividades por meio de uma gestão de excelência. Como hospitais vinculados a universidades federais, essas unidades têm características específicas: atendem pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) ao mesmo tempo que apoiam a formação de profissionais de saúde e o desenvolvimento de pesquisas e inovação.





